
Que Dia das Crianças é esse que eu nunca vi? Ah, sim!!! É o dia de ganhar presentes, ou melhor, de vender presentes. É o dia dos descontos, das prestações, das vendas parceladas, é o dia de “quem pode”, ter alguma coisa, e de “quem não pode”, nem lembrar que existe. Acaba sendo um dia igual aos outros e, muitas vezes, pior ainda… porque acaba-se vendendo o almoço para se comprar a janta.
Dia das Crianças. Besteira! Meus pais me ensinaram que todo dia é o “dia”, seja lá do que for. Criança não tem que ter dia para ser lembrada, é muita hipocresia.
E o pior, tem pai que lembra que tem filho só neste dia. Tá bom vai, vou aceitar as desculpas… que trabalha bastante, chega em casa cansado, estressado, só quer saber de tirar as calças, a botina cheia de areia, tomar um banho, sentar o buzanfão no sofá e ficar coçando o “saco”.
Enquanto isso, na “sala de justiça”, seu filho, com sorriso no rosto, olhos estatelados e chupeta da xuxa, bichinho de pelúcia em uma das mãos e com pantufas do “Piu Piu”, acompanha cada passo seu, esperando um abraço, um “como vai o bebê do papai?”. Deveria ser assim mas, a pobre criança chega até a se desviar para não ser pisoteada.
Acham que estou sendo cruel? Que nada! Isso acontece muito em grandes famílias que tem por aí. E pasmem, a maioria é de classe média-alta. Tem gente que não reconhece, que nem percebe e, quando vai ver, já era! A criança cresceu e caiu no mundo, e os pais, continuam vivendo no seu, mas agora com um grande problemão.

Se na própria família é assim, no convívio familiar, no dia-a-dia, o que esperar da sociedade, dos governantes? Nada, simplesmente nada!
Pô, tô cansado de ver imagens na televisão e a situação nunca muda. E o mais engraçado, tem sempre uma celebridade envolvida como porta-voz, como embaixador, mas cadê os resultados?
Não precisa ir muito longe. Observe mais ao seu redor. Quando sair de casa, seja para se divertir, para trabalhar ou torrar sua grana em farra, não olhe somente para frente quando estiver dirigindo. Olhe para os lados! Se for bem cedinho, você ainda vai encontrar pessoas, digo, crianças e adultos, amontoados em caixas de papelão nas portas das lojas, no comércio da cidade. Se tiver “sorte”, assim como já aconteceu comigo, vai ouvir o choro de uma criança bem alto e, ao olhar para o lado, vai ver uma mulher debaixo de uma árvore, segurando uma criança recém-nascida na mão esquerda e, na outra mão, uma garrafa plástica de coca-cola cheia de água, banhando a criança.

A cada sinal ou semáforo (como preferir), vários rodinhos encharcados, bisnagas de água e mãos-à-obra. Lava-rápido ao ar livre, por apenas 10 centavos, um pedido de ajuda ou fica para a próxima vez. Isso sem falar nos malabaristas que, mal a gente pára o carro, parecem que brotam do asfalto. Nasce um, dois, três, daqui a pouco tem uma montanha de crianças amontoadas bem à sua frente… moreninhos, branquinhos, meninos, meninas, descalços no asfalto quente, cabelos lisos, crespos, descoloridos, com pauzinhos de madeira pra lá e pra cá e uma hélice, com franjas de borracha nas pontas, rodando tanto que faz até vento.
Trinta segundos de apresentação e a formação se desfaz. É muito rápido! Você mal percebe e já tem uma criança do lado esquerdo do vidro do carro, com a mão estendida: - “…tio, tem um trocado?” Dou uma moeda de 50 centavos e, com a mesma, o menino faz o sinal da cruz e coloca no bolso.

É a situação, fazer o quê? Quem pode, contribui para ajudar, para melhorar a situação daquela criança mas, também tem gente que contribui para piorar. Abusam, exploram, tiram proveito, simplesmente para saciar suas fantasias, seus desejos… e que desejos, hein?
Queria ser o gênio da lâmpada para receber um pedido desses ou um bruxo, de vassoura voadora. Quanto ao pedido, claro que não seria atendido e, quanto a vassoura… pelo menos saberia o que fazer com a vassoura…rsrs
É triste… mas é a realidade. Em plena luz do dia, após o almoço, BR 116, caminho de volta à empresa e lá estão. Magrinhas ou gordinhas, altas ou baixinhas, mascando chiclete ou chupando bala de hortelã, sadália rasteira ou salto alto. Com pouca roupa ou calça justa, cabelos ao vento ou presos com liga e fivela, maquiagem pesada ou apenas batom… corpo de mulher mas o rosto não nega: criança. Ascenam com as mãos, como um sinal para TÁXI, assoviam ou utilizam o recurso mais vulgar que conheço: PSIU! Tudo para chamar a atenção. E tem gente que pára!

Isso tudo me fez lembrar um dos maiores hinos do Rap que eu conheço e que, na letra da música, isso há mais de 15 anos, diz assim: “… tô cansado dessa porra, de toda essa bobagem, alcoolismo, vingança, treta, malandragem, mães angustiadas, filhos problemáticos, famílias destruídas, fins-de semana trágicos… o sistema quer isso, a molecada tem que aprender… fim-de-semana no Parque Ipê…” - Fim-de-semana no Parque - Racionais MC`S.
O que esperar de uma criança que troca uma bola por um tubo de cola? Que ao invés de brincar de boneca, de carrinho, prefere um cigarrinho? Que a forma de vender e repassar “papelotes”* foi a única maneira de aprender matemática? Que sabe que um “dólar”** tem outro significado… que oscila na mente e não a bolsa de valores? Que mal consegue suportar o peso do seu próprio corpo, ainda mais com metralhadora, fuzil ou, em punho, um 38? Que a gíria, o palavrão, falas monossilábicas são o seu melhor “malandrês”, seu código de sobrevivência e valem por mais de 1000 palavras?
Nossa visão é outra, estamos do lado de fora. Quem mora nas favelas sabe como é que é. E acabam se acostumando, tudo vira rotina na vida dessas pessoas. Só mesmo o “Mano Brow”*** para relatar tudo isso, com detalhes ricos; eu vivencio cada verso da canção. Aconselho a todos ouvirem “Fim-de-semana no Parque”.

Diante de tudo, eu queria terminar meu texto, pelo menos, de uma maneira feliz. Queria homenagear uma criança que, talvez hoje não seja mais criança. Que, se teve sorte, deve estar por aí, com família, filhos, empregado e bem-de-vida. Esta criança é a da foto acima. Registrei esta imagem há 9 anos atrás, em janeiro de 1996, quando ainda nem morávamos em Fortaleza. Estávamos apenas passeando, de férias.
Como turistas que éramos, conhecemos vários lugares, praias, bares, restaurantes… dentre outros. E, o que chamou atenção nesta criança que vendia doces foi que, num certo dia, na praia do Futuro, ela veio até nossa mesa e ofereceu seus produtos. Mais a tarde, na Beira-mar, passeando na feirinha, novamente encontramos esta criança e, sucessivamente, mais doces e balas para o consumo. À noite, no Chico do Caranguejo, altas horas da madruga, quem eu encontro por lá? Isso mesmo! Com a mesma roupinha, camisa, shorts e a caixinha de doces. Virei freguês e fã!
No dia seguinte, após a ressaca, pegando um sol novamente na Beira-mar, escuto aquela voz alta e fininha: “quem quer doces?” Nem preciso falar né? Como pode? Como é que faz? Qual o segredo? Como têm esse gás todo? Como tinha ganhado um amiguinho, pedi então para bater uma foto de recordação. Preparei a máquina, aumentei a velocidade, fechei o diafragma, foquei seu rosto e, “click”!
Depois de revelar a foto, eu encontrei a resposta para todas as minhas dúvidas: NECESSIDADE!
Basta olhar para seu rosto, para a pele bronzeada do sol, marcas de sardas, rugas de menino, camisa amarrotada. Sorriso inocente, mas com um olhar que vai muito além dos meus: ESPERANÇA!
Um bom final-de-semana para todos.
Na gíria do tráfico:
* Papelotes = Droga, Cocaína, Heroína
** Dólar = punhado de droga, bolsa, embalagem com um punhado de maconha.
*** Mano Brow = vocalista do Racionais MC`S